11/08/2011

18-4-43 (Monólogos)

  5h. - Mais uma vez, sou expulso do sono pelo diabólico chicote de víboras das idéias.
  São 3h. ... ainda! Sem piedade, as fagulhas e os gritos das verdades desses inimigos da noite me atacam e eu não quero o que eu quero.
  A razão gostaria que eu dormisse e repousasse e me refizesse depois de todas as fadigas e dispêndios de mim.
  É um debate obscuro este - Quem é então o mestre, aqui? Junto a "Mim" - Quem, Você?
  Quem ousa acordar quem? e chicoteá-lo com todas as víboras de lampejos que se excitam umas às outras e exigem violentamente viver cada uma delas e sem demora... Ah, minhas implacáveis combinações... Reações - Minha alma inesgotável me esgota - É um estranho conflito.

(1943. Sem título, XXVII, 112)

Texto de Paul Valery, traduzido por Augusto de Campos, no livro Paul Valery: A Serpente e o Pensar

14/02/2011

Errática: Augusto, 80

.


Hoje, 14 de fevereiro de 2011, Augusto de Campos completa 80 anos. A revista Errática, que se orgulha de ter o poeta entre seus mais frequentes colaboradores, preparou uma comemoração multimidiática com vários artistas, que enviaram trabalhos realizados especialmente para essa homenagem:








10/02/2011

autobiografia


(Lawrence Ferlinghetti)




Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando os campeões
do Bilhar do Dante
e os viciados em fliperama.
Levo uma vida sossegada
Na parte baixa da Broadway.
Sou um americano.
Fui um garoto americano.
Li a Revista do Garoto Americano
e me tornei um escoteiro
nos subúrbios.
Pensei que eu era Tom Sawyer
apanhando lambaris no Rio Bronx
e imaginando o Mississipi.
Eu tinha uma luva de beisebol
e uma bandeira dos USA na bicicleta.
Entreguei o Companheiro da Dona-de-Casa
às cinco da manhã.
Ainda consigo ouvir
o jornal caindo na porta das casas.
Tive uma infância infeliz.
Vi Lindberg aterrisar.
Voltei a olhar para casa
e não vi anjo algum.
Fui apanhado roubando lápis
na Loja A Barateira
no mesmo mês que ganhei
a Águia dos Escoteiros.
Cortei árvores para a CCC
e me sentei sobre elas.
Desembarquei na Normandia
num bote inflável que virou.
Vi os exércitos civilizados
na praia de Dover.
Vi pilotos egípcios em nuvens vermelhas
mercadores fechando a loja
ao meio-dia
salada de batatas e gerânios
em piqueniques anarquistas.
Estou lendo “Lorna Doone”
e a vida de John Most
terror dos industriais
uma bomba na escrivaninha o tempo todo.
Vi a parada dos lixeiros
quando nevava.
Comi cachorro quente pelas praças.
Ouvi falar em Gettysburg
e em Ginsberg.
Gosto disso aqui
e não vou dar as costas
pro lugar donde eu vim.
Também viajei em vagões vagões vagões.
Viajei entre gente desconhecida.
Estive na Ásia
com Noé na arca.
Estive na Índia
quando Roma nasceu.
Estive na manjedoura
com um jumento.
Vi a Divina Providência
olhando de uma Casa Branca
ao sul de San Francisco
e a Mulher que Ria em Loona Park
do lado de fora do circo
durante uma tempestade
mas sempre rindo.
Ouvi o som da festança de noite.
Caminhei sozinho
como uma multidão.
Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando o mundo passar
com seus sapatos esquisitos.
Um dia comecei a dar
a volta ao mundo
mas acabei no Brooklyn.
Aquela Ponte foi demais para mim.
Me engajei no silêncio
exílio e astúcia.
Voei muito perto do sol
e a cera das minhas asas derreteu.
Estou atrás do Meu Velho
que eu nunca cheguei a conhecer.
Procuro o Líder Perdido
com o qual eu fugi.
Jovens deviam ser aventureiros.
É da casa que se sai.
Mas Mamãe nunca me disse
que ia ser assim.
Mamãe-eu-quero
Pernas para cima
Eu viajei.
Vi cidades imbecis.
Vi massas nas missas.
Ouvi o Chico chorando.
Ouvi um trombone rezando.
Ouvi Debussy
meio tocado assim.
Dormi em mil ilhas
onde os livros eram árvores
e as árvores eram famílias.
Ouvi uns passarinhos
cantando como sinos.
Usei calças de flanela
E caminhei nas bordas do inferno.
Morei numas cem cidades
onde as árvores eram livros.
Que metrôs que táxis que lanchonetes!
Que mulheres com peitos cegos
bucetas perdidas entre arranha-céus!
Vi as estátuas dos heróis nas praças.
Danton chorando na entrada de um metrô
Cristóvão Colombo em Barcelona
apontando para o ocidente
na direção do Expresso Americano
Lincoln em sua cadeira de pedra
E uma Grande Cara de Pedra
na Dakota do Norte.
Sei que Colombo
não inventou a América.
Ouvi falar de uns cem Ezra Pound fudidos.
Deveriam ser libertados todos eles.
Faz tempo que eu era da manada.
Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
lendo os classificados.
Li o Reader’s Digest
de capa a capa
e observei a identificação
entre os Estados Unidos e a Terra Prometida
onde toda moeda traz marcado
In God We Trust
mas as notas de dólar não
elas são deuses por conta própria.
Li as listas de Procura-se todo dia
procurando uma pedra uma folha
uma porta secreta.
Ouço os Estados Unidos cantando
nas páginas amarelas.
Ninguém diria
a alma tem suas fúrias.
Leio os jornais todos os dias
e vejo gente perdida
nos tristes meandros da imprensa.
Vejo onde o lago de Walden foi secado
para dar lugar a um estacionamento.
Vejo que estão fazendo
Melville engolir sua baleia.
Vejo outra guerra vindo
mas não vou estar lá para lutar.
Li a frase no muro da casa.
Ajudei o Juquinha a escrevê-la.
Subi a Quinta Avenida
tocando uma corneta num pelotão
mas voltei às pressas até o Casbah
procurando meu cachorro.
Vejo uma semelhança
entre cães e eu.
Cães são os verdadeiros observadores
pra lá e pra cá no mundo
atravessando o país.
Desci ruelas
estreitas demais para cadilaques.
Vi cem carroças de leite sem cavalo
num terreno baldio em Astória.
Bem Shahn nunca fez um quadro delas
mas elas estão lá
parte da história.
Ouvi o muito obrigado do drogado.
Cruzei superhighways
e acreditei nas promessas dos cartazes
Atravessei os campos de Jersey
e vi as Cidades da Planície
E chafurdei nos descampados de Westchester
com seus turbulentos bandos de nativos
em carroções.
Eu os vi.
Eu sou o homem.
Eu estava lá.
Sofri de alguma forma.
Sou um americano.
Tenho um passaporte.
Não sofro em público.
E sou jovem demais para morrer.
Sou um homem que se fez sozinho.
E tenho planos para o futuro.
Estou na fila
para um posto lá no alto.
Pode ser que eu esteja indo
para Detroit.
Só por uns tempos
estou vendendo gravatas.
Sou um joão-ninguém.
Sou um livro aberto
para meu patrão.
Um mistério completo
para meus amigos mais íntimos.
Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando para meu umbigo.
Sou uma parte
da longa loucura do corpo.
Vaguei pelas florestas da noite.
Me encontrei em portas bêbadas.
Escrevi histórias selvagens
sem pontuação.
Eu sou o cara.
Eu estava lá.
Sofri
de alguma forma.
Sentei numa cadeira incômoda.
Sou uma lágrima do sol.
Sou uma colina
onde os poetas correm.
Inventei o alfabeto
depois de contemplar o vôo das gralhas
que formavam letras com suas pernas.
Sou um lago na planície.
Sou uma palavra
numa árvore, escrita numa árvore.
Sou uma colina de poesia.
Sou um safári
ao inarticulado.
Sonhei
que todos os meus dentes tinham caído
mas minha língua vivia ainda
para contar a história.
Pois sou um alambique
de poesia.
Sou um banco de canções.
Sou um pianista
num cassino abandonado
numa esplanada à beira-mar
numa neblina forte
sempre tocando.
Vejo uma semelhança
entre a Mulher que Ri
e eu.
Ouvi o som do verão
na chuva.
Vi garotas nas calçadas
ter sensações complicadas.
Compreendo suas hesitações.
Sou um apanhador de fruta.
Vi como beijos
causam euforia.
Arrisquei bruxarias.
Vi a Virgem
sobre uma macieira em Chartres
e Santa Joana queimada
em Bella Union.
Vi girafas em trapézios
os pescoços como o amor
ferida em torno das circunstâncias de ferro
do mundo.
Vi Vênus Afrodite
sem braços no corredor.
Ouvi uma sereia cantar
na Quinta Avenida.
Vi a Deusa Branca dançando
na Rue des Beaux Arts
no Catorze de Julho
e a Bela Dama Sem Misericórdia
assoando o nariz no Chumley’s.
Não falava inglês.
Tinha cabelos amarelos
e uma voz rouca
e passarinho não cantava.
Levo uma vida sossegada
no Bar do Mike todo dia
olhando os que apostam na loteria
compondo a cena minestrone
devorando macarrão
e eu li em algum lugar
o Significado da Existência
mas esqueci
exatamente onde.
Mas eu sou o cara
E vou estar lá.
E posso fazer os lábios
daqueles que dormem
falar.
E posso transformar meus cadernos de notas
em folhas da relva.
E posso escrever meu próprio
epitáfio epônimo
instruindo os cavaleiros
que passam.




 * em A Coney Island of the Mind-1958, tradução de Paulo Leminski.



10/01/2011

mínima moralia





(Haroldo de Campos)



    já fiz de tudo com as palavras     
    agora eu quero fazer de nada  


pílulas do tipo deixa-o-pau-rolar. na mesma base: deixa.



(Torquato Neto)




denot.gif (851 bytes) Primeiro passo é tomar conta do espaço.
    Tem espaço à beça e só 
    você sabe o que pode fazer do seu.
    Antes ocupe. Depois se vire.

denot.gif (851 bytes) Não se esqueça de que você está
    cercado, olhe em volta e dê um rolê.
    Cuidado com as imitações.

denot.gif (851 bytes) Imagine o verão em chamas e fique
    sabendo que é por isso mesmo.
    A hora do crime precede a hora da
    vingança, e o espetáculo continua.
    cada um na sua, silêncio.

denot.gif (851 bytes) Acredite na realidade e procure
    as brechas que ela sempre deixa.
    Leia o jornal, não tenha medo de
    mim, fique sabendo: drenagem, dragas
    e tratores pelo pântano. Acredite.

denot.gif (851 bytes) Poesia. Acredite na poesia e viva.
    E viva ela. Morra por ela se você
    se liga, mas por favor, não traia.
    O poeta que trai sua poesia é um
    infeliz completo e morto.
    Resista,  criatura.

denot.gif (851 bytes) Sínteses. Painéis. Afrescos. Repor-
    tagens. Sínteses. Poesia. Posições.
    Planos gerais. "O Close-up é uma
    questão de amor". Amor.

denot.gif (851 bytes) Eu, pessoalmente, acredito em
    Vampiros. O beijo frio, os dentes
    quentes, um gosto de mel.

    16/11/71 - 3ª-feira



em "Os Últimos Dias de Paupéria"
Org. Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte
Ed. Max Limonad, 1982 



09/09/2010

os sentidos sentidos

.

(Augusto de Campos na voz de Caetano Veloso)


o amor que a mim comove
e a qualquer homem
o baixo ventre
o baixo ventre
e também os seios às mulheres
o amor que enverniza a flor
o mal
a fúria de dois leões
que ferem a pele
do amor
e não o cerne do amor
que a mim comove
o alto coração
como alto ar que aura
a fronte da acrobata
é lenda?

podes ser falsa
e oscilas como o riso
da fímbria do rictus
de um olho de vidro
do prateado poeta
para a vida
ou como a serpente estendida
sob a escama sibilina
come a flauta
o poeta
alisa tua seda
é lenda?

o nome quer brilhar a língua
língua é lenda
a própria lenda é lenda
além da.


16/08/2010

alfômega


clique na imagem para ampliar




08/08/2010

Acrilírico

.


(Caetano Veloso / Rogério Duprat)


Olhar colírico
Lírios plásticos do campo e do contracampo
Tudo ido e lido e lindo e vindo do vivido
Na minha adolescidade
Idade de pedra e paz
Teu sorriso quieto no meu canto
Ainda canto o ido tido o dito
O dado o consumido
O consumado
Ato
Do amor morto motor da saudade
Diluído na grandicidade
Idade de pedra ainda
Canto quieto o que conheço
Quero o que não mereço
O começo
Quero canto de vinda
Divindade do duro totem futuro total
Tal qual quero canto
Por enquanto apenas mino o campo ver-ter
Acre e lírico o sorvete
Acrílico Santo Amargo da Purificação





.

30/07/2010

vidapoesia: figura de palavras

.


(Haroldo de Campos)



poesia:
complicações meta (quase)
físicas
compulsão de metáforas
impuras cerca-viva de
emblemas
torcidos como
arames
e as palavras- antenas
o polimento a lima
o jogo
o jugo
dos fonemas


vida:
complicações psico (pata)
físicas
relaxo de músculos ventrais
apotegmas de reumas e pneumas
paralipômenos... parafrósine... parálise
linfas simpato-
empáticas
combustão visceral de vulva
e pênis

(e o pasmo dos
neurônios quando
súbita
ela passa - ninfa
trivial..... diana
de tênis)


(Haroldo de Campos, em Cristantempo, Ed. Signos)

27/06/2010



Não me peçam razões...



Não me peçam razões, que não as tenho,

Ou darei quantas queiram: bem sabemos

Que razões são palavras, todas nascem

Da mansa hipocrisia que aprendemos.


Não me peçam razões por que se entenda

A força de maré que me enche o peito,

Este estar mal no mundo e nesta lei:

Não fiz a lei e o mundo não aceito.


Não me peçam razões, ou que as desculpe,

Deste modo de amar e destruir:

Quando a noite é de mais é que amanhece

A cor de primavera que há-de vir.
 
 
 
José Saramago, em "Os poemas possíveis" (1966).
 
 
 

25/04/2010

le(r)minski . vol.1


estou aqui presente neste labirinto de enganos deleitáveis
vejo a rua
vejo prédios
vejo a fumaça dos automóveis
vejo mais…
estou imerso e intenso

intenção: estar apenas onde estouro
agora


ver é com os olhos e além eu olho e o olhar me molha por dentro
meu olhar amplia a pessoa que em mim aprende o mundo
o tudo que habita o fora de mim: realidades


outro olhar amplia o meu olhar sobre as realidades-mundo…
o olho cresce lentes sobre coisas
o mundo despreparado para essa aparição do olho…
onde faz o deserto chama-se paz …
estou exagerado de realidade
quero ir longe…
ir lá!
lá nas águas da pantera…
quem se parece mais comigo…

mais não pôde a argila humana


sou apenas alguém que sabe dizer não


desde verdes anos
tentaram-me o eclipse e a economia dos esquemas

exímio dos mais hábeis nos manejos de ausências
busquei apoio nos últimos redutos do zero

foi a época que mais prestigiei o silêncio
o jejum e o não
a geometria…
quase não pensar…
quadrado é quase nada
um círculo praticamente falta…
traçar uma linha beira o ócio:
pensar um problema de geometria
é desviar dum vôo sem dar um nulo pio

quando geômetra
ser se reduz ao que há de mais nada

essa aranha geometrifica seus caprichos na idéia dessa teia:
emaranha a máquina de linhas

e está esperando que lhe caia às cegas um bicho dentro:
aí trabalha
aí ceia
aí folga
caminha no ar
sustenta-se a éter

obra de nada: não vacila não duvida não erra


organiza o vazio avante
apalpa papa e palpita

resplandecente no nada onde se engasta e agarra-se pela alfaia em que pena
deserto de retas onde a geometria não corre riscos mas se nada
esta desolação do verde
neste deserto cheio
está se prevalecendo de meus feitos de ser
fiz-me pouco a pouco: constituí-me
letras me nutriram desde a infância
mamei nos compêndios
e me abeberei das noções das matas
manuseei manuais
vasculhei tomos e mergulhei rios

em decifrar enigmas
fui édipo

em rolar cogitações
sócrates
em multiplicar folhas pelo ar
outono


(leminski entrecortado : catatau)

03/03/2010

BRINDE

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.


(Mallarmé)

Tradução de Augusto de Campos

24/02/2010

SONETO



Não será sempre assim... Quando não for,
quando teus lábios forem de outro; quando
no rosto de outro o teu suspiro brando
soprar; quando em silêncio, ou no maior

delírio de palavras, desvairando,
ao teu peito o estreitares com fervor;
quando, um dia, em frieza e desamor
tua afeição por mim se for trocando:

se tal acontecer, fala-me. Irei
procurá-lo, dizer-lhe num sorriso:
"Goza a ventura de que já gozei".

Depois, desviando os olhos, de improviso,
longe, ah tão longe, um pássaro ouvirei
cantar no meu perdido paraíso.


e. e. cummings (1894-1962)


(Trad. de Manuel Bandeira)




17/02/2010

Poema de Omar Kaiam

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Ah, vem, vivamos mais que a vida, vem,
Antes que em pó nos deponham também,
Pó sobre pó, e sob o pó, pousadas,
Sem cor, sem sol, sem som, sem sonho - sem!





Omar Kaiam
tradução de Augusto de Campos



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10/11/2009

o verme e a estrela

.



(Pedro Kilkerry)

Voz de Adriana Calcanhoto
Arranjos de Cid Campos
Leitura de Augusto de Campos



encarte do disco A Fábrica do Poema



ouça a música:





.
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16/10/2009

o pulso das palavras

.



vladimir maiakóvski




Sei o pulso das palavras, a sirene das palavras
Não as que se aplaudem do alto dos teatros
Mas as que arrancam caixões da treva
e os põem a caminhar quadrúpedes de cedro.
Às vezes as relegam inauditas, inéditas
Mas a palavra galopa com a cilha tensa
ressoa os séculos e os trens rastejam
para lamber as mãos calosas da poesia.
Sei o pulso das palavras, parecem fumaça
Pétalas caídas sob o calcanhar da dança
Mas o homem com lábios, alma, carcaça.




ouça: tradução de Augusto de Campos
música: Cid Campos
1982



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12/10/2009

ELEGIAS DE DUÍNO (PRIMEIRA ELEGIA)

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
sua existência demasiado forte. Pois que é o Belo
senão o grau Terrível que ainda suportamos
e que admiramos porque, impassível, desdenha
destruir-nos? Todo Anjo é terrível.
E eu me contenho, pois, e reprimo o apelo
do meu soluço obscuro. Ai, quem nos poderia
valer? Nem Anjos, nem homens
e o intuitivo animal logo adverte
que para nós não há amparo
neste mundo definido. Resta-nos, quem sabe,
a árvore de alguma colina, que podemos rever
cada dia; resta-nos a rua de ontem
e o apego cotidiano de algum hábito
que se afeiçoou a nós e permaneceu.
E a noite, a noite, quando o vento pleno dos espaços
do mundo desgasta-nos a face - a quem furtaria ela,
a desejada, ternamente enganosa, sobressalto para o
coração solitário? Será mais leve para os que se amam?
Ai, apenas ocultam eles, um ao outro, seu destino.
Não o sabias? Arroja o vácuo aprisionado em teus braços
para os espaços que respiramos - talvez pássaros
sentirão o ar mais dilatado, num vôo mais comovido.

Sim, as primaveras precisavam de ti.
Muitas estrelas queriam ser percebidas.
Do passado profundo afluía uma vaga, ou
quando passavas sob uma janela aberta,
uma viola d'amore se abandonava. Tudo isto era missão.
Acaso a cumpriste? Não estavas sempre
distraído, à espera, como se tudo
anunciasse a amada? (Onde queres abrigá-la,
se grandes e estranhos pensamentos vão e vem
dentro de ti e, muitas vezes, se demoram nas noites?)
Se a nostalgia vier, porém, canta as amantes;
ainda não é bastante imortal sua celebrada ternura.
Tua quase as invejas - essas abandonadas
que te pareceram tão mais ardentes que as
apaziguadas. Retoma infinitamente o inesgotável
louvor. Lembra-te: o herói permanece, sua queda
mesma foi um pretexto para ser - nascimento supremo.
Mas às amantes, retoma-as a natureza no seio
esgotado, como se as forças lhe faltassem
para realizar duas vezes a mesma obra.
Com que fervor lembraste Gaspara Stampa,
cujo exemplo sublime faça enfim pensar uma jovem
qualquer, abandonada pelo amante: por que não sou
como ela? Frutificarão afinal esses longínquos
sofrimentos? Não é tempo daqueles que amam libertar-se
do objeto amado e superá-lo, frementes?
Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no vôo
mais do que ela mesma. Pois em parte alguma se detém.

Vozes, vozes. Ouve, meu coração, como outrora apenas
os santos ouviam, quando o imenso chamado
os erguia do chão; eles porém permaneciam ajoelhados,
os prodigiosos, e nada percebiam,
tão absortos ouviam. Não que possas suportar
a voz de Deus, longe disso. Mas ouve essa aragem,
a incessante mensagem que gera o silêncio.
Ergue-se agora, para que ouças, o rumor
dos jovens mortos. Onde quer que fosses,
nas igrejas de Roma e Nápoles, não ouvias a voz
de seu destino tranquilo? Ou inscrições não se ofereciam,
sublimes? A estela funerária em Santa Maria Formosa...
O que pede essa voz? A ansiada libertação
da aparência de injustiça que às vezes perturba
a agilidade pura de suas almas.

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,
abandonar os hábitos apenas aprendidos,
à rosas e a outras coisas singularmente promissoras
não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;
o que se era, entre mãos trêmulas, medroas,
não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome
como se abandona um brinquedo partido.
Estranho, não desejar mais nossos desejos. Estranho,
ver no espaço tudo quanto se encadeava, esvoaçar,
desligado. E o estar-morto é penoso
e quantas tentativas até encontrar em seu seio
um vestígio de eternidade. - Os vivos cometem
o grande erro de distinguir demasiado
bem. Os Anjos (dizem) muitas vezes não sabem
se caminham entre vivos ou mortos.
Através das duas esferas, todas as idades a corrente
eterna arrasta. E a ambas domina com seu rumor.

Os mortos precoces não precisam de nós, eles
que se desabituam do terrestre, docemente,
como de suave seio maternal. Mas nós,
ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes
só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles
poderíamos ser? Inutilmente foi que outrora, a primeira
música para lamentar Linos, violentou a rigidez da
matéria inerte? No espaço que ele abandonava, jovem,
quase deus, pela primeira vez o vácuo estremeceu
em vibrações - que hoje nos trazem êxtase, consolo e amparo.

RAINER MARIA RILKE - do livro Elegias de Duíno, primeira elegia.
Tradução de Dora Ferreira da Silva.



cogito

.


torquato neto



eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.




.

09/10/2009

a pantera

.



rainer maria rilke



De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.



(Tradução: Augusto de Campos)



.

05/10/2009

Leda e o cisne

.


william butler yeats




Um baque surdo. A asa enorme ainda se abate
sobre a moça que treme. Em suas coxas o peso
da palma escura acariciante. O bico preso
à nuca, contra o peito o peito se debate.

Como podem os pobres dedos sem vigor
negar à glória e à pluma as coxas que se vão
abrindo e como, entregue a tão branco furor,
não sentir o pulsar do estranho coração?

Um frêmito nos rins haverá de engendrar
os muros em ruína, a torre, o teto a arder
e Agamemnon, morrendo.
.........................................Ela tão sem defesa,

Violentada pelo bruto sangue do ar,
se impregnaria de tal força e tal saber
antes que o bico inerte abandonasse a presa?





* em Poesia da Recusa, tradução de Augusto de Campos.



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12/09/2009

e começo aqui...

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Poema e voz de Haroldo de Campos
(trecho do poema Galáxias)
música de Alberto Marsicano








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09/09/2009

SOB O SOL

.



Sob o sol em meu leito após a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!




Poema de Paul Valery (1871-1945)

(tradução: Augusto de Campos)


.

O TYGRE (WILLIAM BLAKE)

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?


Tradução: Augusto de Campos

PROVÉRBIOS DO INFERNO (WILLIAM BLAKE)

No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.

A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.

Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

O verme partido perdoa ao arado.

Mergulha no rio quem gosta de água.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.

Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.

A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.

A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.

As horas de loucura são medidas pelo relógio; mas nenhum relógio mede as de sabedoria.

Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.

Toma do número, do peso e da medida em ano de escassez.

Nenhum pássaro se eleva muito, se eleva com as próprias asas.

Um cadáver não vinga as injúrias.

O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.

Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando Sábio.

A loucura é o manto da velhacaria.

O manto do orgulho é a vergonha.

As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a glória de Deus. A fúria do leão é a sabedoria de Deus. A nudez da mulher é a obra de Deus.

O excesso de tristeza ri; o excesso de alegria chora.

A raposa condena a armadilha, não a si própria.

Os júbilos fecundam. As tristezas geram.

Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.

O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O sorridente tolo egoísta e melancólico tolo carrancudo serão ambos julgados sábios para que sejam flagelos.

O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.

A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte derrama.

Um só pensamento preenche a imensidão.

Dizei sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.

Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade. A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.

De manhã, pensa; ao meio-dia, age; no entardecer, come; de noite, dorme.

Quem permitiu que dele te aproveitasses, esse te conhece.

Assim como o arado vai atrás de palavras, assim Deus recompensa orações.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.

Da água estagnada espera veneno.

Nunca se sabe o que é suficiente até que se saiba o que é mais que suficiente.

Ouve a reprovação do tolo! É um elogio soberano!

Os olhos, de fogo; as narinas, de ar; a boca, de água; a barba, de terra.

O fraco na coragem é forte na esperteza.

A macieira jamais pergunta à faia como crescer; nem o leão, ao cavalo, como apanhar sua presa. Ao receber, o solo grato produz abundante colheita.

Se os outros não fossem tolos, nós teríamos que ser.

A essência do doce prazer jamais pode ser maculada.

Ao veres uma Águia, vês uma parcela da Genialidade. Levanta a cabeça!

Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para deitar seus ovos, assim o sacerdote lança sua maldição sobre as alegrias mais belas.

Criar uma florzinha é o labor de séculos.

A maldição aperta. A benção afrouxa.

O melhor vinho é o mais velho; a melhor água, a mais nova.

Orações não aram! Louvores não colhem! Júbilos não riem! Tristezas não choram!

A cabeça, o Sublime; o coração, o Sentimento; os genitais, a Beleza; as mãos e os pés, a Proporção.

Como o ar para o pássaro ou o mar para o peixe, assim é o desprezo para o desprezível.

A gralha gostaria que tudo fosse preto; a coruja, que tudo fosse branco.

A Exuberância é a Beleza.

Se o leão fosse aconselhado pela raposa, seria ardiloso.

O Progresso constrói estradas retas; mas as estradas tortuosas, sem o Progresso, são estradas da Genialidade.

Melhor matar uma criança no berço do que acalentar desejos insatisfeitos.

Onde o homem não está a natureza é estéril.

A verdade nunca pode ser dita de modo a ser compreendida sem ser acreditada.

É suficiente! Ou Basta.


WILLIAM BLAKE (1757-1827)